A Dança dos Dias.

  Sete da manhã e subitamente acordo. Estagnado com a veracidade de uma verdade obscura, procuro forças pra retomar minha consciência. Observo o teto que me protege da chuva corrente. Levanto-me. Por entre lentes sujas de um óculos velho, eu admiro as gotas de tristeza que ironicamente caem em um solo de tantos anos de alegrias. E, olhando pra chuva, percebo a falta que minha amada me faz. Ah, a vontade de amar... Amar às oito e meia.

   Condeno-me. Não seria necessário, mas condeno-me. Castigo-me. Repreendo-me por não poder estar onde deveria e onde gostaria de estar. Já não sinto vontades, se não a de amá-la cada vez mais. Pois é estranhamente confortável tê-la em meu peito. Ver seu rosto, perfeito em cada detalhe... Ter seu formoso corpo, tão próximo ao meu, e ter que largar. Frustração. Frustar-se faltando quinze minutos para as nove horas irrita qualquer um.

   Frustração parece-me o resultado de meses de esforço. Consolo-me. "Já não há o que fazer", digo eu, na tentativa desesperada de me sentir bem, mesmo com a partida. Penso em esquecer que tenho que me afastar. Já não me é opcional, oras. Derramar lágrimas não me ajuda. Prossigo com a minha manhã.

   Procuro café. Com uma xícara em mãos, continuo a ouvir o som da chuva. Minha atenção é chamada. Sento-me perante a grandiosidade da chuva. Sinto que meus olhos não são suficientemente perfeitos pra perceber tudo o que ela me representa. Meu coração traduz essa chuva para amor incondicional. Lembro-me do calor daquele corpo, perante ao delicioso frio desse inverno de quinze segundos. Não dá mais.

   Não tem como esquecer que terei que me afastar. Esquecer não me parece a palavra correta. Aceitar não me é cômodo, mas é o melhor. Aceito. Olho para meu malfadado relógio de pulso. Nove e treze da manhã mais chuvosa. Chuva... Viver a chuva é uma arte. E observando a chuva passar por entre meus dedos qual areia, Penso em telefonar. "É cedo, ainda.", repito, e mais uma vez retomo minha rotina melancólica. 

   Meio dia. Dia de chover. Dia de amar. Amar à distância. Não tenho como vê-la, telefono, finalmente. Ouço a doçura de uma voz inocente e serena, falando de todas as coisas. Começam as declarações, e assim vamos até o meio da tarde. Desligo o telefone. Três e quarenta e cinco da tarde.

   Continuo a imaginar o quão bom seria se ela estivesse ao meu lado. Penso no que ela poderia estar pensando... Penso na metafísica de um amor tão lindo. Não me sinto mais tão deprimido, mas ainda não estou completo. Lembro-me dos dias passados, onde eu olhava para os olhos dela, e via meu futuro passando como um filme antigo. Sinto um leve sorriso bobo, típico de um apaixonado, brotando no meu rosto. Lembrar-me dela não me deprimiu, mesmo sem ter a visto. Sinto-me surpreso! Surpresas no fim da tarde. O relógio da parede me fala que faltam vinte minutos para as sete da noite.

   Mas quando ouço o apito das dez da noite que eu volto. O toque de recolher leva o rei de volta ao castelo. E deitado na minha cama, desejo-a ali, do meu lado. Desejo que sua serenidade me sirva de calmante. Desejo que sua doçura me faça esquecer o frio. Desejo que seu corpo me cure o vazio. Convicto, falo que amanha será um dia menos triste. Ainda convicto, falo que meu amanhã não será tão a ver com ela. E o demônio que vive dentro de mim, que eu carinhosamente chamo de consciência, ri de mim. Eu sei que estou só brincando de ter razão. Onze da noite, e ainda não durmo.

   Duas da manhã, e não fecho meus olhos. não desejo parar de pensar naquela Mulher. "Que eu sonhe com ela", clamam meus lábios, e eu finalmente percebo a verdade. Tento tanto achar, mas sempre esteve na minha frente. Rio de mim mesmo. 

   Quando meu relógio marca duas e quarenta e quatro, finalmente durmo. E em meu sonho, percebo que é ela quem coordena meu cérebro. É ela quem escreve meu roteiro. E finalmente consigo dormir em paz. Paz temporária, mas continua sendo paz.

   Durmo para acordar às sete de novo, e buscar meu café de novo. E amá-la de novo. E telefonar de novo. E imaginar de novo. E olhar no relógio, inimigo carinhoso. E chegar a conclusão de que é você, minha amada, quem dita a dança dos meus dias.

2 Comentários:

Roberta Peçanha

Meu Deus,Estou sem palavras! QUE TEXTO MARAVILHOSO!
Sei que sou suspeita, mas você se supera a cada postagem!
Muito lindo mesmo! me sinto orgulhosa duas vezes!
kkkkkkkkkkkkkkkk
TE AMOOOOOOOOO

Daniella

Tadeeeeeeuuuu!!! Cara, fio... mto lindo! Apaixonante o seu texto! E pior que lendo-o, projeto o que estou vivenciando no momento. Perfeito!
Cara, vira um escritor aí, vai! rs Vou comprar todos os livros!
Você é puto de brilhante! Demais!

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