Uma Canção Menos Grosseira

    Dessa vez, deixarei os meus dedos me guiarem. Deixarei que minha vida tome o rumo que meus olhos desejam. Dessa vez, minhas palavras terão o poder. E eu, o dono da história, criarei um mundo novo e menos barulhento. Reinará a paz a cada página, e no final não teremos festa, mas sim o dia-a-dia de pessoas felizes pelo nada que possuem.

    Esse mundo terá um nome simples de se proferir e uma bandeira fácil de se desenhar. Terá paisagens boas de se olhar e céus de cores diferentes. As tardes serão mais longas que a noite e o dia será mais calmo que a madrugada. Todas as vezes que o Sol for se pôr, eu estarei lá, sentado no topo da montanha mais alta, assistindo o meu mundo. O meu mundo... Meu.

    Quando eu escrever sobre o Mar, lembrarei de criar as algas, os corais e os navios piratas naufragados mais próximos da costa. Farei com que cada criança saiba dos segredos dos bandidos, e cada uma delas terá uma infância tão cheia de fantasias que crescerá com o mesmo sorriso infantil. Essa criança vai querer contar a todos "Vejam! Um navio de piratas! Eles têm aquelas espadas legais e tudo mais! Vejam, vejam", mas os adultos estarão ocupados, invejando a infância desse pobre diabo. O sorriso infantil some, e em seu lugar entra o olhar adulto de frieza e inveja daqueles que não foram forçados a jogar suas infâncias no lixo.

    Eu vou ter pena das almas desses, e estarei sempre lá, amando cada personagem que criei, como se fossem parte de mim. Amarei a cada um, e sempre tentarei escrever uma história mais feliz. Uma série de crônicas pra reconfortar aqueles que perderam seus pais cedo demais. Amarei a cada um, como se a tinta fosse meu sangue a caneta fosse a fibra de meus músculos. Amarei tão cegamente, que não verei obstáculos para ajuda-los.

    Mas esses ingratos me odiarão. Eles se perguntarão porque suas vidas foram criadas, e porque sofrem tanto ainda. Vão se perguntar porque foram criados. Por que nasceram? "Por que existe alguém que acha divertido ver a dor de alguém inocente da própria existência? A culpa... A culpa é do meu criador! Se não fosse por ele, eu jamais sofreria tanto... Odeio você" diriam eles, e eu, em todo o meu amor, me machucaria demais, tal qual um pai ao receber o ódio de seus filhos.

   Mas se você acha que sou Deus, estás enganado. Minha diferença para Ele é que Ele sabe perdoar. Ele perdoa e te ama cegamente de novo. Eu... Eu criarei finais tenebrosos, de dores e sofrimento a cada um dos rastros de tinta falhos que criei. Farei a literatura se transformar em um inferno de dor, e destruiria esses hipócritas, que dizem odiar minhas criações, mas estão sempre pelas noites aproveitando meu mundo... Meu mundo... Meu. Destruiria esses idiotas de olhares carentes e vazios. E, no final, só restariam as crianças, que ainda brincam de piratas na praia.

    Eu descobrirei a hora certa, e enfim criarei outro mundo. Nesse novo mundo, não há dia. Não existe nem o dia, nem a noite, nem a madrugada. Apenas as tardes felizes e róseas. As praias terão muitos piratas e as florestas muitos monstros. Mas qualquer criança será capaz de vencê-los. Esse mundo não terá nome, nem bandeira. Esse mundo não terá abismos, nem mortes. Ninguém morrerá. Ninguém envelhecerá. Não haverá a passagem do tempo. E todos nascerão sobre o mesmo pôr-do-sol. Sob o mesmo hino.

    E eu farei questão de que o hino desse mundo seja uma canção menos grosseira que a do meu primeiro erro.

3 Comentários:

Historiando

Caraaa vc realmente escreve maravilhosamente bem ^^

Monique Goulart

Adorei esse seu texto, como adoro todos que você escreve. Nunca deixe todo seu talento e criatividade para escrever de lado. Esteja sempre exercitando e melhorando como vc sempre melhora, porque eu sempre estarei aqui para admirar seus belíssimos textos. *.*

­Nanda

Você está cada vez melhor, nossa acho que nunca vou me acostumar! Parabpéns \o

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