Crônica II - Flores e sonhos

    "Ok, eu não vou mais sonhar", bradou para o espelho, com toda a convicção de alguém que acabara de passar por mais um trauma. Não era o mais esperto dos homens, mas sabia quando iria se dar mal. E era por que iria se dar mal que iria em frente com o projeto "suicida".

    Sonhar lhe era prejudicial à saúde. Lhe fazia tossir, espirrar e muitas vezes abria uma heinekens bem gelada pra se curar das eventuais dores de garganta. Sonhar era chato. Sempre os mesmos sonhos, os mesmo desejos, tanto carnais quanto os emocionais. Quero dizer, pra um cara de trinta e tantos anos, é deprimente morar sozinho em um apartamento pequeno em Boston. Principalmente da parte ruim de Boston.

    Mas é só falar que não quer mais esse coração, que ja bate a pena de jogá-lo na fogueira. "Acho que o que eu preciso é de mais cerveja..." pensou, e pegou a chave do carro encima da mesa de madeira totalmente marcada pelas inúmeras latinhas que ja tinham dormido ali. Andando pela avenida principal, viu aqueles outdoors enormes com mulheres que não parecem existir de tão perfeitas, promovendo um produto que não funciona. A mulher do canto lembrou ele daquela mulher que o fizera parar no espelho feito um idiota, e proclamar mantras pra esquecer da vida. Mulheres...

    Tudo que ele queria era uma simples noite de paz... É dificil viver em Boston, ainda mais quando sua única fonte de renda é uma mercearia, mas dormir não é tão dificil. Pelo menos não deveria ser. Ao entrar no mercado, viu outra mulher muito parecida com sua "ex-dor de cabeça". Ele não podia acreditar que nem mesmo longe dele ela não o deixara em paz. "Vou visita-la... Quem sabe isso não me acalme um pouco.". Foi isso que ele falou antes de pegar o terceiro engradado.

    De frente ao mercado, havia uma floricultura. Ele entrou e comprou algumas tulipas. A garota do caixa o olhava como se quisesse entender o que um cara com barba por fazer e jaqueta da Harley-Davidson fazia comprando tulipas. Logo tulipas... Como ele sabia o que eram tulipas?

    Depois de resmungar sobre o espanto da atendente, pegou o carro e seguiu. O caminho era escuro e, para deixar o cenário ainda mais melancólico, a chuva começou a cair sobre o parabrisa de seu Impala. Ele passou pelo portão do cemitério e foi em direção aos jazigos maiores.

    "Elizabeth C. White  1976 - 2007" eram as inscrições de um grande túmulo. Um dos maiores de todo o cemitério. Ele olhava fixamente pra foto desgastada, e seus olhos enchiam-se d'água. "Você me largou... E nem me ensinou a me apaixonar de novo, né? Você é uma egoísta". Ele deixou as tulipas encima de várias outras tulipas mortas, e voltou para casa. Afinal, ele tinha quatro engradados de cerveja pra colocar na geladeira.

    No caminho de casa, enxugou as lágrimas e pensou "Eu tenho que aprender a sonhar de novo..."

2 Comentários:

Lanna;

Já aconteceu isso comigo. '-'

­Nanda

A meu deus, que coisa terrível :/ E eu pensando que teria uma continuação assim.. sei lá que triste ;x

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